domingo, 5 de abril de 2020
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Faça uma visitinha ao ateliê Vera Mello no endereço colab55.com/@veramello.
Lá você encontrará canecas como essas e poderá adquirir também cases, sandálias, posters, cartões, sketchbooks, almofadas e muitos outros produtos com essas e outras imagens para presentear os amigos.
Um Feliz Natal e ótimo Ano Novo para todos.
Vera Mello
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Um Feliz Natal e ótimo Ano Novo para todos.
Vera Mello
domingo, 8 de dezembro de 2019
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Me pega pela mão
Vera Mello
me pega
pela mão
me leva
para ver os lírios
de um jeito
que nunca vi
me deixa te
ver de novo
com os
olhos da minha criança
depois me
roda, me dança
me pega
pela mão
deixa que
eu sinta na minha
todas as
linhas da tua
em cada
curva da rua
me mostra
de novo os rios
as flores
do campo crescendo
as
dormideiras, bromélias
as
borboletas em festa
me dá de comer jamelão
me beija com
a língua roxa
me
presenteia com um buquê
feito de
hortênsias de estrada
ou de
bocas-de-leão
e no final
desse dia
depois que
o sol for embora
me desvesta
pra dormir
onde eu
possa ouvir a noite
rega de
semen o jardim
que mora no
meu avesso
pra que
brote essa mulher
que eu quis
ser desde o começo
PS.: Esses versos ganharam valsa do querido músico Thiago da Serrinha.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
NO NATAL AS MEMÓRIAS SE INQUIETAM
O barulho da chuva encobria nosso silêncio naquela manhã. A vida não era fácil no subúrbio. Tudo era medido, contado, usado com parcimônia. Só as águas eram abundantes. De tudo sempre, mas pouco: carne, frango, peixe, salada, legumes frescos. Muitos ítens vindos do quintal. Passávamos restrições, nunca fome. Teríamos maxixe para o almoço, vi o pacote quando ela chegou da feira. As grandes especialidades da mãe eram: cozinhar, costurar , cantar, batucar, brincar e reprimir. Não necessariamente nessa ordem. Naquele dia, eu não pude ir à Escola. Tivera febre alta à noite. Criança entediada na minha vizinhança não via TV. Eram raras. Quem tinha compartilhava, às vezes, com os vizinhos. Era um momento especial, um evento, como uma reunião festiva entre amigos. Leitura? Só as indicadas pela Escola. Livro fora da lista escolar era coisa de gente abastada. Havia uma minuscula biblioteca pública a poucas estações de trem de casa, mas crianças não podiam ir sozinhas até lá e as mães não as levavam em dias de temporal. Dia de febre, sem biblioteca, sem escola e sem rua, era para brincar na cozinha, aporrinhar a mãe com perguntas e atrapalhar o fluxo das tarefas domésticas. Um pouco antes do almoço, ela começou a abrir o saquinho de maxixes. Pediu que eu pegasse uma caixa de fósforos. Corri para o armário próximo ao fogão. Entreguei a caixa e fiquei ao lado dela, cauda abanando, cadelinha à espera do graveto. Pegou um daqueles maxixes com rabinho. Enfiou, cuidadosamente, quatro fósforos num dos lados. Pernas. Partiu dois outros e enfiou na parte da frente do maxixe até a ponta escura. Olhos. Abriu espaço na ponta da pequena bancada. Colocou o recém-nascido ali. Rápido fez um outro, e mais outro. Trigêmeos. Normalmente a ninhada de porcos-espinhos rabudos era de um só. Em dia de chuva com febre, a prole aumentava. Ao lado, um funil de cabeça para baixo. Tenda com chaminé. Um tabuleiro com água. Lago. Uma travessinha pequena de plástico. Barco. Iniciei a travessia dos filhotes, enquanto os outros , potenciais, eram fatiados na panela sobre o refogado de tomate e cebola. As mãos dela, para mim, eram como as de Deus, estavam por toda parte. Vez por outra ela interferia e mudava o destino dos filhotes e o curso da história, bastava perceber uma fagulha de tédio nos meus olhos. Em casos extremos, um peteleco fazia um filhote cair no lago. Meu barco, que até então se deslocava lentamente, partia em velocidade para o salvamento. Entre raios e trovões, o início da tarde testemunhou dezenas de novos cenários e enredos. Ao ranger da porta de entrada , a voz da mãe pediu que me afastasse do fogão. Os irmãos voltavam da escola. Hora de banha de porco quente e frituras. Artistas de subúrbio éramos nós. Desses cuja alegria vaga pelas estropiadas vielas. Desses cuja imaginação expande o espaço exíguo. Desses que compartilham e colorem tudo, até o abandono e a escassez.
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