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sexta-feira, 21 de maio de 2021

                                                                        PARATY 










sábado, 25 de julho de 2020


Hai cai

Semáforo
Vera Mello / ilustração Mariana Blanc

bebê com catarro
no colo de mãe criança
- escorre esperança

domingo, 5 de abril de 2020

Poesia : Exilados no quintal - Vera Mello



Poesia Dupla Síndrome de Estocolmo (Vera Mello)



segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Faça uma visitinha ao ateliê Vera Mello no endereço colab55.com/@veramello.
Lá você encontrará canecas como essas e poderá adquirir também cases, sandálias, posters, cartões, sketchbooks, almofadas e muitos outros produtos com essas e outras imagens para presentear os amigos.
Um Feliz Natal e ótimo Ano Novo para todos.
Vera Mello


domingo, 8 de dezembro de 2019

Tornado eleitoral    
                   Vera Mello

  todo futuro
           muro
  toda justiça
           blefe
  toda notícia
          isca
qualquer lucidez
           miragem
qualquer caminho
           rastilho
  qualquer discussão
             faísca

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

      Dupla Síndrome de Estocolmo
                                       Vera Mello











quarta-feira, 6 de novembro de 2019




Me pega pela mão 
                Vera Mello 

me pega pela mão
me leva para ver os lírios
de um jeito que nunca vi
me deixa te ver de novo 
com os olhos da minha criança
depois me roda, me dança

me pega pela mão
deixa que eu sinta na minha 
todas as linhas da tua
em cada curva da rua
me mostra de novo os rios
as flores do campo crescendo
as dormideiras, bromélias
as borboletas em festa
me dá de comer jamelão
me beija com a língua roxa
me presenteia com um buquê
feito de hortênsias de estrada 
ou de bocas-de-leão

e no final desse dia
depois que o sol for embora
me desvesta pra dormir
onde eu possa ouvir a noite
rega de semen o jardim 
que mora no meu avesso
pra que brote essa mulher
que eu quis ser desde o começo

PS.: Esses versos ganharam valsa do querido músico Thiago da Serrinha. 


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

NO NATAL AS MEMÓRIAS SE INQUIETAM
O barulho da chuva encobria nosso silêncio naquela manhã. A vida não era fácil no subúrbio. Tudo era medido, contado, usado com parcimônia. Só as águas eram abundantes. De tudo sempre, mas pouco: carne, frango, peixe, salada, legumes frescos. Muitos ítens vindos do quintal. Passávamos restrições, nunca fome. Teríamos maxixe para o almoço, vi o pacote quando ela chegou da feira. As grandes especialidades da mãe eram: cozinhar, costurar , cantar, batucar, brincar e reprimir. Não necessariamente nessa ordem. Naquele dia, eu não pude ir à Escola. Tivera febre alta à noite. Criança entediada na minha vizinhança não via TV. Eram raras. Quem tinha compartilhava, às vezes, com os vizinhos. Era um momento especial, um evento, como uma reunião festiva entre amigos. Leitura? Só as indicadas pela Escola. Livro fora da lista escolar era coisa de gente abastada. Havia uma minuscula biblioteca pública a poucas estações de trem de casa, mas crianças não podiam ir sozinhas até lá e as mães não as levavam em dias de temporal. Dia de febre, sem biblioteca, sem escola e sem rua, era para brincar na cozinha, aporrinhar a mãe com perguntas e atrapalhar o fluxo das tarefas domésticas. Um pouco antes do almoço, ela começou a abrir o saquinho de maxixes. Pediu que eu pegasse uma caixa de fósforos. Corri para o armário próximo ao fogão. Entreguei a caixa e fiquei ao lado dela, cauda abanando, cadelinha à espera do graveto. Pegou um daqueles maxixes com rabinho. Enfiou, cuidadosamente, quatro fósforos num dos lados. Pernas. Partiu dois outros e enfiou na parte da frente do maxixe até a ponta escura. Olhos. Abriu espaço na ponta da pequena bancada. Colocou o recém-nascido ali. Rápido fez um outro, e mais outro. Trigêmeos. Normalmente a ninhada de porcos-espinhos rabudos era de um só. Em dia de chuva com febre, a prole aumentava. Ao lado, um funil de cabeça para baixo. Tenda com chaminé. Um tabuleiro com água. Lago. Uma travessinha pequena de plástico. Barco. Iniciei a travessia dos filhotes, enquanto os outros , potenciais, eram fatiados na panela sobre o refogado de tomate e cebola. As mãos dela, para mim, eram como as de Deus, estavam por toda parte. Vez por outra ela interferia e mudava o destino dos filhotes e o curso da história, bastava perceber uma fagulha de tédio nos meus olhos. Em casos extremos, um peteleco fazia um filhote cair no lago. Meu barco, que até então se deslocava lentamente, partia em velocidade para o salvamento. Entre raios e trovões, o início da tarde testemunhou dezenas de novos cenários e enredos. Ao ranger da porta de entrada , a voz da mãe pediu que me afastasse do fogão. Os irmãos voltavam da escola. Hora de banha de porco quente e frituras. Artistas de subúrbio éramos nós. Desses cuja alegria vaga pelas estropiadas vielas. Desses cuja imaginação expande o espaço exíguo. Desses que compartilham e colorem tudo, até o abandono e a escassez.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

PUDIM DE ABACATE SEM GLÚTEN, LEITE E AÇÚCAR


Ingredientes

3 abacates maduros e grandes
3 a 6 colheres (sopa) de leite de coco
2 colheres (sopa) de mel puro
1/4 de xícara de cacau em pó
2 colheres (chá) de óleo de coco
1 colher (chá) de extrato de baunilha

Modo de preparo

Adicione todos os ingredientes no liquidificador e bata em velocidade máxima por cerca de um minuto. Quando a mistura tiver homogênea, coloque numa forma e leve para a geladeira. Deixe descansar por meia hora e depois aproveite.

terça-feira, 28 de junho de 2016

PARABÉNS HERMETO !

Estava viajando e acabei esquecendo de homenagear o Bruxo da Música Popular Brasileira que fez 80 anos no dia 22 de junho. Quem vê Hermeto Pascoal pela primeira vez fazendo das suas, não imagina que ele (se quisesse e se ainda tivesse algum tesão nisso) saberia tocar "quadradinho", não só piano, como flauta transversa, sanfona, bateria, violão e que tudo, rigorosamente tudo em suas mãos, vira coisa musical : xícara, porco, piscina vazia, abelha e o que mais lhe der na telha, inclusive o próprio corpo. A música de Hermeto é universal. Aldir Blanc lhe prestou uma bela homenagem letrando "Chá de Panela", música que trata do universo de Hermeto em parceria com Guinga . Há dez anos fiz minha homenagem aos 3 executando o objeto da foto com coisas de cozinha. O objeto hoje dá um toque musical às minhas panelas cotidianas. Obrigada Hermeto! Obrigada Aldir ! Obrigada Guinga! Nome do objeto? Chá de panela. Confira a letra de Aldir abaixo. É aula de Hermeto. Foto do objeto Juliana Ennes. Foto do bruxo nao sei o autor, mas parabenizo.

 Chá de Panela (Guinga e Aldir Blanc)

Hermeto foi na cozinha pra pegar o instrumental :
do facão à colherinha tudo é coisa musical. 
Trouxe concha e escumadeira, ralador, colher de pau,
barril, tirrina, e peneira - tudo é coisa musical. 
Me convidou para uma pinga,
meu não pesou com dó,
piscou um olho só,
disse que eu tiro da seringa,
que home que não bebe e nega mocotó,
acaba quenga em vez de guinga,
se veste de filó afrouxa o fiofó
e o ferrão já nem respinga:
encolhe feito um nó e vai ficar menó...

Assoprou numa chaleira,
bateu numa bacia.
Jesus , Ave Maria,
era uma sinfonia!
Secador e geladeira entraram no compasso,
dançou a farinheira, saleiro no pedaço
e tudo era coisa musical,
funil mandando: ôi!
fogão gritando: uau!
Fez um chocalho de arroz e outro de feijão
No talo do mamão soprou a flauta
que já vi tocá mais doce irmão, direto ao coração.
Assoprou numa chaleira, bateu numa bacia...
Nesse chá de panela que eu senti a vocação:
vi que música é tudo que avoa e rasga o chão.
Foi Hermeto Paschoal que magistral
me deu o dom de entender
que do lixo ao avião em tudo há tom
E que até pinico da bom som
se a criação é mais
se o músico for bom

segunda-feira, 16 de maio de 2016

AH, PERAÍ, ESPERA AÍ! NÃO! NÃO! NÃO! ESPERA AÍ ! QUE PATRIMÔNIO PERDEMOS! A primeira vez que vi um cantor, diferente de meu pai e de minha mãe, cantando ao vivo, foi em Piedade. Eu era criança, a família se vestiu com a melhor roupa que tinha, praticamente a mesma para todos os dias de festas. Fomos vê-lo cantando e aguardávamos ansiosos o momento de " Conceição". Ah... eu me lembro muito bem! A alegria da família musical indo ao teatro perto de casa, a compra dos tickets, o ritual de entrada, a procura das cadeiras. Depois o timbre original e os graves e agudos daquela voz poderosa que , à época, o Brasil já começava a reconhecer que viraria referência . Cauby foi um dos mais longevos e incansáveis operários da música brasileira e penetrou, de forma indelével e brilhante, nos camarins dos corações de quem gostava e de quem não gostava dele. A ele a minha gratidão.

 https://www.youtube.com/watch?v=MFTOPMwt-i0

quinta-feira, 3 de março de 2016

Alô Niterói! Não falei que o Ateliê andava a mil? Minha homenagem hoje vai pra vocês que moram naquela cidade lindinha lá do outro lado da ponte. Alguns dizem que para criar o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Niemeyer teria se inspirado numa taça, outros numa flor, talvez uma tulipa. Outros ainda, desconfiam que foi num disco voador . A versão disco é a minha favorita. Quem passa à noite com o espelho d’água iluminado pode testemunhar o disco de-co-lan-do e sentir uma espécie de epifania interestelar, se é que me entendem, rsrsrsrsr. Só não sente e não vê quem não quer , quem não sabe transver o mundo ou quem não é bocó como eu. Eu vi. E com marcianinhos e tudo, rsrsrsrs. Visite o ateliê Vera Mello no link endereço https://www.colab55.com/@veramello. O MAC com os marcianinhos já está lá nas versões: Poster, cartão postal, caneca e sandália. As tirinhas das sandálias podem ser tradicionais ou slim e há 8 variedades de cores a escolher . Não vou ficar nem um pouquinho chateada se vocês contarem a novidade para os amigos, prometo! rsrsrsrsr. Beijoca

terça-feira, 1 de março de 2016

O Ateliê Vera Mello anda a mil.

O Pão de Açúcar 4 com a pipinha-gato, lançado antes em scrapbook, ganhou versão para sandálias.

Vai viajar? Leve para os amigos lá de fora. Será exclusivo, pois o Colab55 só vende aqui no Brasil. É leve para ir na mala e ficou simpática, não ficou?

Os amigos daqui também vão gostar. Nem precisa sair de casa para comprar, basta encomendar aqui:
 https://www.colab55.com/@veramello

O site informa o prazo de entrega, depende da cidade. No Rio chega em 10 dias aproximadamente.

Os tamanhos variam de 31 a 46 e as tiras estão disponíveis em 8 cores: preta, branca, transparente, azul, vermelha, rosa, verde e dourada.

Faça uma visitinha virtual ao meu ateliê no Colab55. Está cheio de carioquices. Depois me conte a arte que mais gostou e se puder dê uma forcinha na divulgação.

Nem imagina como vou ficar feliz vendo a sandalinha passeando por aí, rsrsrsrsrs.


Novidade no Ateliê Vera Mello do Colab55.

Sketchbook Pão de Açúcar
A vista foi feita do Forte Copacabana e leva a minha "pipinha gato" que já nasceu cheia de amor das pessoas, rsrsrsrsrs.
Está no site em 2 tamanhos diferentes e 7 diferentes cores de elástico a escolher.
Há muitos outros artistas colocando suas criações por lá e o pessoal que administra o site é eficiente e simpático. Além de incentivar a criatividade comprando trabalhos exclusivos, você nem precisa sair de casa para adquirir, é só clicar no link abaixo.
Consulte no site os prazos de entrega, pois eles dependem da cidade.
No Rio chega em 10 dias aproximadamente.
Beijoca e obrigada por sua visita por aqui.

https://www.colab55.com/@verame…/sketchbooks/pao-de-acucar-4

sábado, 19 de setembro de 2015

CONFETE À MODA DA CASA

Em meio ao caos das palavras
sussuraram teu nome.
Só a lágrima ouviu.
                       Vera Mello

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Dia dos Namorados

Que tal um café da manhã com essas canequinhas no dia dos namorados?
Nosso Pão de Açúcar ganhou novas roupagens para enfeitar com mais açúcar e afeto as suas manhãs. Visite o studio Vera Mello no Colab 55 e veja essa e outras sugestões de canecas, capinhas de celulares (cases) e almofadas para presentear o seu amor.
Atenção ao prazo de entrega. Se você pedir muito em cima da hora, não vai chegar a tempo.
www.colab55.com/@veramello
Beijoca.



sábado, 9 de maio de 2015

Canecas

Olá pessoal,

Comecei esta semana uma nova fase aqui no blog.
Criei um studio no Colab55, primeira startup Brasileira que opera no modelo de "Casa de Produção", iniciativa importantíssima para os Artistas e Designers do país. 

O site permite que o Artista/Artesão tenha lá o seu studio e sua vitrine de produtos.
Nele a arte ganha a forma de produtos exclusivos e de alta qualidade, feitos sob demanda para pessoas que estão cansadas da mesmice e da produção em massa.
O site se responsabiliza pela interface entre os Artistas e a Clientela interessada em seus produtos .
É um acontecimento auspicioso para os Criadores.  Precisávamos de um lugar que administrasse esse meio de campo ,  para que pudéssemos apenas nos dedicar à criação de novidades para você.
A partir de hoje, divulgarei os novos produtos que lançarei no Colab55 .  Por favor façam uma visitinha até lá e passeiem pela minha vitrine e pela vitrine de outros Artistas. Oxalá encontrem um produto interessante para presentear com charme e originalidade.

Aí vai o endereço do meu studio no site e alguns dos primeiros produtos que lancei por lá. Depois deles muitos outros vieram e muitos outros ainda virão.  A série em homenagem ao Rio de Janeiro é o meu modo de dizer "Feliz Aniversário Cidade Maravilhosa".

Espero que gostem.
Beijo carinhoso.
Vera Mello
https://www.colab55.com/@veramello







domingo, 6 de maio de 2012

Os duendes da oficina do Sr. Waldemar

                     

Quando era bem pequenininha, acho que lá pelos seis anos de idade, achava que existiam duendes morando nos rádios da oficina de eletrônica de meu pai.  Na verdade, eu não achava, eu tinha absoluta certeza .

Todas as noites,  depois que Papai e Mamãe se acomodavam em suas camas para dormir, eu me levantava pé ante pé  e ficava de tocaia atrás da porta da oficina, na esperança de surpreender os duendes passeando pelas prateleiras ou conversando e fazendo algazarra na ceia da meia noite, com suas touquinhas e roupinhas coloridas.   Achava que eles arquitetavam planos durante a ceia e eram exatamente esses planos,  que me interessavam. Minha intenção era me juntar a eles nas aventuras noturnas, ao invés de ficar perdendo meu precioso tempo dormindo.   

Quando o sono começava a tomar conta do meu corpo, eu tentava resistir o máximo possível, até ouvir as doze badaladas. Então pulava imediatamente da cama e ficava de longe olhando, escondida. Tinha certeza que eles apareceriam , então não podia fazer a bobagem de pregar o olho.  Lá pela madrugada , com o corpo já tomado pelo torpor e sono, eu deitava na cama para aguardá-los mais confortàvelmente e, invariàvelmente, caia nos braços de Morfeu e acordava pela manhã de péssimo humor. 

Eu sabia que os duendes eram muito astutos, era preciso ser mais astuta que eles. Sabia que tinham várias técnicas para não serem percebidos no mundo dos homens.  Tinha lido sobre isso num livro de duendes quando fui à biblioteca do Meier com minha mãe.  Eles usavam algumas técnicas simples como, por exemplo,  transitar em horários pouco usuais aos moradores da casa. Tinham também técnicas mais sofisticadas, como a mimetização, por exemplo.  Sempre achei essa técnica muito moderna e misteriosa.  Às vezes gastava horas imóvel , observando os lagartos mudarem de cor. 

Certa noite , no auge da excitação e curiosidade,  decidi ficar de tocaia até a hora do café da manhã .  Quem sabe não os pegaria usando a torradeira  ou mimetizados em uma das saias estampadas de minha mãe ?  Foi uma longa noite.  Devo ter tirado umas sonequinhas curtas, nada porém que atrapalhasse a vigília.  Quando o sol já despontava no horizonte ,  me deixei levar pelo sono exausta e decepcionada, pois eles, mais uma vez, não colocaram o nariz pra fora .   

No dia seguinte, ou melhor, naquele mesmo dia à tarde , dormi durante a aula na escola.  A Professora mandou chamar minha mãe. Foi um dia muito tenso.  Meu sono virou o assunto do dia na família.  Eu não gostava de virar o assunto do dia em casa . Na escola então, nem se fala!  Na escola só gostava de ser assunto quando falava poesia para os colegas no pátio. Eu ficava muito nervosa antes, mas na hora H sempre falava direitinho e nunca esquecia nenhum verso do poema.  Agora, verdade seja dita, ficava bem mais feliz quando tudo acabava e ganhava o beijo da minha mãe.

Voltando ao assunto daquele dia.   Minha mãe não conseguia compreender o que tinha acontecido comigo , pois eu era muito boa aluna, não dava problemas e tinha ido dormir cedo na noite anterior.  Bem, falemos baixo, isso era o que ela pensava, a gente sabe que não foi bem assim.   Não tive coragem de contar a verdade para ela. Achei que minha mãe passaria a vigiar a minha vigília e essa vigília ao quadrado atrapalharia muito os meus planos com os duendes.

Uma outra vez escrevi com cuidado um recado e deixei ao lado do rádio de ouro, tão logo  meu pai  se retirou da oficina.  O recado era endereçado ao duende que mais nos freqüentava e que parecia ser o preferido de meus pais . Eu acho até que ele era Chefe dos outros duendes.  O nome dele era Júlio Louzada. Disse a ele que passaria a dormir direitinho e que seria uma boa menina o resto do ano, caso ele aparecesse para mim , pelo menos um pouquinho. Fiquei horas sentada com as perninhas cruzadas diante do rádio de ouro.  Meu pai adorava aquele rádio. A marca dele não me lembro, mas o formato dele era mais ou menos assim:


Essa parte redonda era de um tecido florido, caramelo brilhante. Quando os raios de sol  batiam nele, os fios de ouro reluziam.  Um dia ouvi minha mãe dizer que o nome do tecido de ouro era jacar.  Perguntei a ela como se escrevia e ela escreveu : jacquard, assim, desse jeito esquisito.   Fiquei imaginando se aquele brilho não seria o reflexo do pote de ouro que os duendes guardavam no final do arco-iris mas, para admitir isso, eu teria que admitir, também, que minha casa ficava no final do arco-íris e isso me confundia um pouco . Como uma casa tão importante, que ficava no final do arco-íris,  não tinha uma enorme fila de gente na porta para fazer visitação?  Isso me deixava muito intrigada. 

Outra coisa que me intrigava muito, era a voz do Duende Chefão.  Quando esse Duende falava, a voz dele era tão forte , tão forte, que o tal do jacquard  sacudia ao som dos graves e agudos e desde que minhas mãos sentiram aquela sonoridade pela primeira vez, eu passei a escrever sobre aquele duende com letra maiúscula, assim: Duende!  Eu colocava minha mãozinha sobre o pano para sentir as nuances de sua voz e pensava:
-  Nossa, que voz bonita e forte a desse Duende  ! Algum dia queria ter uma voz  assim, para todo mundo me ouvir . 

Toda noite eu apoiava levemente minha mão sobre o pano para sentir a voz tonitroante do Duende e ficava imaginando como seria ele: gordinho? Baixinho com um chapéu de ponta fina? Será que usava  sapatos pretos longos como os do Pateta? Um aventalzinho branco? Será que na verdade era um gigante igual ao meu pai, que se passava por Duende para conhecer a vida deles?  Será que eu poderia um dia usar o mesmo truque?

Certa vez, cansada da indiferença do grandão e de todos os seus coleguinhas, deixei ao lado do rádio um pedaço de bolo branco com  glacê de limão , cortado em formato de  losango.  Atenção.  Esse não era um bolo qualquer.  Eu o tinha trazido da quermesse da igreja de Nossa Senhora da Piedade. Era o meu bolo preferido e minha cartada decisiva.  Duvido que eles nao aparecessem para comer! Eu  os veria, finalmente, e a entrega do meu bolo teria valido a pena.  Meu receio era que eles , na algazarra, não percebessem o bolo, o que além de não atingir meu objetivo específico, ainda propiciaria uma segunda bronca da minha mãe , quando ela visse o bolo que tinha comprado para mim com tanto carinho, sendo devorado pelas formigas. 
   
Vou lhes confessar uma coisa .  Esse foi um gesto de uma criança desesperada. Foi talvez o mais radical,  contundente e veemente gesto de súplica , generosidade e risco de toda a minha infância.   Só eu e talvez, minha mãe, poderíamos avaliar o significado  daquele gesto.  Ela era a única pessoa que conhecia a importância daquele bolo para mim .  Às vezes ia comigo à quermesse cansada.  Não era fácil chegar lá.  Subíamos duas ladeiras enormes,  mais a escadaria da igreja e lá tínhamos que procurar o melhor entre as barracas. Ela sabia o significado daquele esforço.  Além do mais,  aquele daquele dia, não era apenas um bolo losango com cobertura de limão gostoso.  Era o  mais especial de todos, pois tinha sido feito por D. Ligia , a que melhor sabia fazê-lo e tínhamos comprado na quermesse do dia da festa da própria  Nossa Senhora da Piedade , ou seja, não compramos numa quermesse qualquer da igreja , compramos na quermesse dela, a Nossa Senhora, era o melhor de todos os bolos do mundo e bento pela melhor das Santas.  Convenhamos, o plano era perfeito .  Parti para ele cheia de fé.  Tinha certeza que , daquela vez, eles nao resistiriam.   
   
Aquela foi a noite de vigília mais longa de toda a minha vida. Foi difícil ficar acordada. Eu tinha brincado  muito na quermesse e estava bastante cansada. O mais importante, no entanto,  é que eu sabia que eles estavam por lá,  inclusive o grandão. Tinha ouvido sua voz , como de hábito,  na hora da ave maria.

Foi uma noite excitante, mas também meio triste aquela. Claro, até então não sabia que teria uma noite muito pior alguns anos mais tarde, quando minha mãe teria que se desfazer dos meus gatos por pressão de meu Pai que um dia bradou: Os gatos ou eu !
Isso, no entanto, é uma outra história.

Quando percebi que os duendes não viriam, comecei a ter pensamentos estranhos que me deixaram insegura. Comecei a achar que eu não era uma menina boa, que eu era  insignificante, algo assim como o que minha mãe pensava das lagartixas,  que matava com horror e medo.  Por que não merecia daqueles duendes nenhuma atenção ?  Eu já me achava às vezes sem a devida  atenção de  meu pai, às vezes até de meus irmãos, especialmente quando eles se esqueciam de me bater, era algo assim como se eu fosse invisível, transparente.   Eu fiz tudo que sabia de melhor para que me dessem um cadinho de atenção e, com o bolo, tinha esgotado toda a minha criatividade e poder de fogo. 

Chorei muito aquela noite . Não conseguia compreender o que faziam eles de tão importante lá dentro , que não podiam sair nem por um segundo para atender ao pedido de uma criança. Não conseguia entender como teriam resistido ao bolo de D. Lígia. Aquele foi um dia decisivo na minha vida.  Eu era muito perseverante e determinada, mas ali desisti , definitivamente,  de minhas vigílias .  No entanto, aprendi algumas coisas :

1.  Aprendi que quando o outro não quer, nao há nada que possamos fazer para atrai-lo.  
2.  Aprendi que  pai e mãe  são desatentos às vezes , mas pelo menos nos olham com aquele olhar especial, nos colocam no colo , zangam quando fazemos bobagem, enfim, nos enxergam e nos ouvem de algum modo .  OK, às vezes temos que gritar para isso, mas acabam nos ouvindo. 
3.  Aprendi que duendes são completamente indiferentes aos nossos apelos e à nossa presença .  Não nos amam mesmo e isso dói. 
4.  Aprendi que até Nossa Senhora da Piedade , vez por outra, também é surda e indiferente às  nossas súplicas e preces. Talvez seja muito ocupada, como minha mãe quando tínhamos visitas. 
5.  Aprendi que decepção e  desamparo são sentimentos desagradáveis  que acometem crianças, mesmo as bem amadas , desde muito cedo e que nossos pais nem sempre tem alguma coisa a ver com isso. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quero uma carta perfumada

O carteiro estava quase ao alcance da mão.  Nunca vi tantas cartas vindo na minha direção.  Era uma pilha enorme, com envelopes coloridos de vários formatos e tamanhos, alguns alinhados, outros quase pulando da pilha , ansiosos pelos seus destinos.   O carteiro cantarolava e deslizava pela calçada como se fosse tempo de carnaval e  a pilha um monte de pequenas plumas coloridas .  Nenhum peso! Pensei:
- Pilha grande de cartas,  leve desse jeito,  deve trazer boas notícias.

Minha carta de amor certamente estaria ali.   Aquela que me faria rir como boba,  cambalear de alegria pelas esquinas dos sonhos e da casa ,  minha carta do amor esperado, do amor renascido dos sonhos e fantasias deterioradas, amor maduro, leal, amor delicadeza , vagareza revisitada ,  tesão cansado e débil , mas presente , esperançoso , sem culpa e , nesses malditos tempos, tesão necessariamente seguro. 

Que saudade eu estava de cartas de amor!  Digo cartas de tinta, papel, envelope que se tem que comprar na papelaria, caneta que falha a cada pressão particular da mão, que denuncia  a emoção do momento , carta com papel fino e delicado, que pesa pouco na balança do correio, mas muito na do coração , com aquele montão de folhas.   Carta que nunca termina, que quer ter certeza que o outro estará por longo tempo conectado àquelas linhas , carta com selo colado a saliva, que frequenta a fila do correio , que enfrenta os cuidados com a chuva para não perder a palavra fundamental na mancha de água, carta com pingo de lágrima, que passou com calma e cuidado pela dobra certa  para entrar no envelope, que pesquisou o poema certeiro para anexar, que é relida algumas vezes antes de enviar,  que fica escondida sob as roupas no final de semana para ter a garantia de que só o destinatário tomará conhecimento de seu conteúdo, carta que se derrama e  ama e que antes do envio se borrifa com perfume  ou se anexa uma pétala de rosa ou flor da noite.

Vendo o carteiro caminhar na minha direção, durante segundos passei o filme das cartas de minha vida. Revi todas as vezes que o carteiro não foi visto, revi todas as vezes em que foi visto e não parou, revi todas as vezes em que se atrasou, pensei em todas as cartas que não chegaram, naquelas que se extraviaram, nas que ficaram na intenção e não se realizaram. Lembrei do cartão de natal que recebi de minha mãe pouco antes de partir  e lembrei também da parte mais assustadora de todas:  o fato de que só você me tinha feito carta de amor do jeito que gosto. Hoje estamos em tempo digital.  Nem chamamos as mensagens mais de cartas.  Recebi lindas, não nego.  O amor também era sincero e doce.  Mas foi um amor que veio por transportes que não vejo e caminhos que não posso tocar com meus pés.   Não gosto de caminhos onde não posso colocar meus pés.  Afinal não foram para os pés que os caminhos foram feitos?  Não foram feitos para que sentíssemos sua textura, sua fofura ou dureza, sua umidade e relevo , para que caíssemos e levantássemos e buscássemos as melhores passagens antes de chegarmos ao objetivo desejado ? Tampouco  vieram pelos transportes que vejo e conheço.  Tudo bem, somos seres dotados de linguagem e de mundo simbólico, mas prefiro mundo simbólico construido sobre coisas que passaram pelos meus sentidos.   Sinto falta de símbolos com mais consistência de símbolos .  Queria uma carta que viesse por caminho que conheço, caminho que eu pudesse pressentir os acidentes de percurso, caminho que eu pudesse acompanhar a previsão do tempo e fantasiar os perigos escondidos nas curvas da estrada.  Caminhos cheios de imaginação. Gostaria também de conhecer o motorista, ver a cara do cocheiro, do piloto, do navegante , do ser  no comando do transporte que trazia a carta e, finalmente, num arremate pra lá de saudoso, queria conhecer pelo nome e  poder dizer bom dia ao carteiro.

Como é a cara da estrada das cartas da modernidade a que nem cartas chamamos ? Como é a cara do cocheiro que transporta meus e.mails por essas vias digitais? E que história é essa de retalhar  minhas cartas , rasgá-las em milhares de pedacinhos para serem enviados por diferentes rotas e serem  recompostos no seu destino, para que o trânsito seja mais rápido ?  Que destino é esse, na verdade? Quem disse que quero rapidez no trânsito?  Quero cartas que saiam inteiras da minha mão e cheguem inteiras ao seu destino.  Nada de picote pelo caminho por gentes e processos virtuais que não conheço.  Me aflige essa idéia de que uma máquina retalha meu texto para recompô-lo no destino e que um pedaço vai por Nova Iorque enquanto o outro segue pelo polo sul fazendo um pit stop na Austrália. Nunca fui à Austrália. Não conheço o povo e suas estradas. Conheço a Austrália pela televisão, maquiada em tempos de Olimpíada. Além disso assisti a olimpíada da Austrália no Canadá. Sem o meu referencial de cá , com o do Canadá sem intimidade e com o da Austrália maquiado, não é possível se ter uma idéia minimamente razoável daquele lugar e daquelas gentes. E o pacotinho que viajará por Nova Iorque?  Depois do 11 de setembro não se pode confiar nessa rota !

Minha carta de amor estava a caminho. O amor era garantido,  sem dúvida.  Não existem dúvidas quando o amor é maduro e recíproco. Dúvida é coisa de amor jovem ou de amor antigo cansado e já covarde, de amor enjoado, mas principalmente , é coisa de amor magoado .  Nada disso era o meu amor.  Era um amor  consistente, leal e levemente inconsequente. Generoso e cremoso com gosto de sapoti maduro .  Gosto definido, claro, inconfundível.  Era amor que cuidava do amor em tempos de guerra e de paz.  Era amor demais, sem pressa, cheio de carimbos e certificados de origem e trajetória de vida.  A carta certamente vinha com cheiro de carro de boi e foi deixada para curtir por uma semana na agência do correio, antes de chegar ao seu destino. Pousou com o carteiro para tomar água num banco de praça, caminhou junto com ele por caminhos tortuosos, alguns pedregosos, outros gramados,  até finalmente estar ali, naquele instante , vindo em minha direção depois de transitar sem pressa pelo seu necessário tempo e , finalmente , passar por mim sem me olhar e  ser colocada na caixa de correio da casa ao lado.